sábado, 31 de julho de 2010



Gritar. Gritar até que o mundo inteiro saiba que eu existo. Gritar até que os meus pulmões gritem sozinhos, sem precisar de ar. Gritar até que alguém me escute e me dê a mão. Gritar sem usar palavras, ah, sem usar as palavras, aquelas amigas traiçoeiras que cavaram um buraco em mim. Gritar por dentro, gritar sangue, gritar vida, gritar dor. Gritar até que minha garganta fique seca, até que meu coração se canse, até me calar para sempre e então o silencio gritará por mim.
nád.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Um copo de arrependimento, por favor - parte V

Ainda não leu os capítulos anteriores?

Já são duas horas da madrugada, a hora em que combinamos. Tenho que tentar sair com o máximo de cuidado para que ninguém acorde e pensem que é algum ladrão, minha mãe morre de medo disso, então, posso chegar a levar algumas pauladas na cabeça sem que percebam que sou eu.
Sair até que foi fácil, mas deixar meus pais sem avisar foi complicado. Nunca fiz isso em minha vida, então não sei como será suas reações. Bom, agora só me resta aguentar horas e horas de viagem.
- Oi Lisa. Entre e fique a vontade. Sabe, considero este caminhão como a minha moradia.
- Oi Senhor...
- John.
- É, John. Obrigada por tudo que o senhor está fazendo por mim.
Legal, estou viajando com alguém que nem o nome eu sabia. Calma Lisa, calma, tudo irá ocorrer bem, tão bem que você nem imagina.
Não faz muito tempo que partimos, e já consigo sentir o sabor da liberdade de que tanto falam. É uma sensação inexplicável de paz, alegria com uma mistura de temor. Temor por não saber o que irá acontecer, ou se isso que estou fazendo é realmente o que eu quero.
Mas o que eu preciso - muito - agora é de descanso. Dormir e sonhar com tudo que está por vir.

Continua.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Apenas simples fotografias

Hoje fiz algo que eu deveria já ter feito há muito tempo atrás. Retirei os álbuns de fotografias guardados no balcão empoeirado com fotos tiradas ainda com aquela antiga câmera analógica e que me fizeram perceber o quão eu era feliz naquele tempo. Não que eu não seja feliz, mas ultimamente, nada mais está igual. O mundo já não é mais o mesmo. Comecei a conviver com pessoas que tentam mudar o meu modo de pensar. Pessoas que se acham tão poderosas, porém, não merecem o que comem. A pressão é tanta que meu anseio de regressar ao passado aumenta a cada minuto, a cada vez que olho aquelas fotos.
Fotografias que me fazem rir, ou até chorar. Talvez por saudade ou apenas de emoção. Fotografias que até podem estar um pouco amareladas pelo tempo, mas que não impedem que eu reviva tudo aquilo novamente, tudo através do poder que nossa mente tem de trazer à tona momentos tão bons e felizes. Alguns minutos de paz, tranquilidade, que acabam deixando meus problemas de lado, jogando-os ao vento e me fazendo reviver de uma forma mágica aquele passado, que jamais será esquecido.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Morrer é bom?


Desde pequena, Melissa sempre foi uma criança muito meiga e radiante, tinha a capacidade de fazer as pessoas que viviam ao seu redor se sentirem confortáveis e alegres, apesar de apresentar uma doença que estava acabando com sua vida aos poucos. A leucemia. Na verdade, Melissa nunca soube o que realmente estava acontecendo, todas as vezes que ia acompanhada de sua mãe, Dona Sarah, aos exames e à quimioterapia, não tentava esconder a sua expressão de dúvida.
Era em uma sexta-feira nublada quando Sarah recebeu a pior notícia de sua vida. Foi chamada pelo médico responsável pelo tratamento de Melissa que foi breve, porém, cuidadoso para que Sarah não sofresse tanto. Eram os últimos dias de vida da menina de sete anos. O tratamento não estava fazendo efeito e não havia mais nada a fazer. Apenas esperar, até a morte chegar de viagem.
Sarah chegou abalada em casa, deixando lágrimas escorrerem de seu rosto. Melissa, questionando o porquê de tanta tristeza, não recebia respostas. Mas sentia, que todo aquele sofrimento era por causa dela. A menina então, juntou as duas mãos e rezou, rezou, até dormir...
- Melissa meu amorzinho, acorde, tenho algo para mostrar à você.
Abrindo os olhos com dificuldade e sentindo sua fraqueza, Melissa percebeu que sua mãe tinha uma enorme caixa em mãos e que esboçava um sorriso em sua face.
- O que é isso mãe? - perguntou a criança com um tom de curiosidade em sua voz.
- O que está dentro disso minha filha, é toda a sua vida.
- Toda minha vida mãe? Como pode caber toda a minha vida dentro desta caixa?
A mãe deu um pequeno riso e abriu a caixa misteriosa. Curiosa, Melissa sentou na cama com cuidado e ficou encantada com tudo que viu ali dentro. Realmente, sua vida estava guardada lá. Todos os seus brinquedos, todas as suas roupas de quando ainda era um bebê estavam muito bem organizados dentro da caixa, inclusive sua primeira mamadeira. Sua mãe lhe explicou que todos nós deveríamos ter uma caixa para guardar nossos melhores momentos. Assim, quando não estamos bem, abrimos a caixa e revivemos todos aqueles momentos bons, nem que seja por alguns minutos.
- Mamãe, então estamos passando por algum momento difícil?
- Não minha filha, só achei que estava no momento certo para lhe explicar e mostrar tudo isso. - a mãe mentiu, tentando impedir o choro, que por infelicidade, deixou escapar uma única lágrima.
- Por acaso você está chorando mãe?
- Não filha. - Sarah então, passou a mão na cabeça de Melissa, fechou a caixa e a pôs em um canto e saiu do quarto deixando fluir as lágrimas que tanto lutou para segurar.
Mas Melissa não era daquelas que se deixa enganar facilmente, ela sabia que algo, dentro dela, não estava bem.
Dias se passaram e Melissa se sentia cada vez mais fraca, não conseguia mais se sentar à cama para rever junto com sua mãe os objetos guardados na caixa, que lhe faziam tão bem. Durante as noites, Melissa também percebia que sua mãe se sentava na cadeira de balanço e ficava ali, até adormecer. A menina se sentia tão mal por estar fazendo sua mãe sofrer tanto, que chegou pedir aos céus para que lhe levassem, e acabassem com esse sofrimento logo. E isso não demorou muito...
Tudo aconteceu em uma noite bastante fria, alguns dias antes do inverno. Naquela noite, Sarah não dormiu no quarto da menina e isso fez com que ela se sentisse mais culpada. Mas eu fui rápida e muito cuidadosa. Não, não sou a morte e não sou feia e horripilante quanto ela. Quando chego, os humanos costumam me confundir com fadas e se encantam tanto que não é complicado convencê-los a irem comigo. E foi justamente isso que aconteceu com Melissa.
A menina me viu saindo da caixa onde a vida dela estava guardada e em um primeiro momento ficou assustada. Tentou gritar, mas não adiantou. Ofereci minha mão para que ela me acompanhasse e ficou surpresa quando percebeu que havia conseguido levantar da cama, onde não conseguia à dias. Estendeu sua mão que se uniu à minha, e, pela última vez, olhou para trás, e viu seu miúdo corpo encolhido na cama. Esperei, até que sua atenção voltasse para mim, e a levei, em direção àquela caixa, onde seria a porta de entrada para a sua nova vida.
Finalmente, o desejo que consumia aquela menina naqueles últimos dias havia se realizado. Deixar o mundo onde viveu por sete anos e fazer com que a sua mãe seguisse a sua vida livremente, sem que ninguém impedisse. Nem a própia Melissa.

Pauta para a Edição Visual - Projeto Bloínquês

sábado, 24 de julho de 2010

Um copo de arrependimento, por favor - parte IV

Ainda não leu os capítulos anteriores?

Amanhã. Amanhã, nada mais será igual. Não sei se o que eu estou fazendo é certo ou errado, apenas estou seguindo meu coração. Não é o que todos dizem? 'Siga o que o seu coração manda.' Pois bem, é o que eu estou fazendo. Ontem eu estava pensando em escrever um carta, ou um pequeno bilhete, para meus pais. Eles precisam ter uma explicação e precisam ficar conscientes que não irá valer a pena tentarem me encontrar, pois só voltarei quando eu tiver plena certeza de que será a hora certa.
Encontrei um bloco de notas e uma caneta jogados em cima do balcão em meu quarto e comecei a escrever...

(Ao som de Live Forever - Oasis)

Papai e mamãe,
peço desculpas por tudo que estou fazendo vocês passarem. Toda essa agonia. Todo esse sofrimento. Mas quero que vocês saibam que eu estou bem, e antes que você chamem a polícia para tentarem me encontrar, eu estarei em casa, sã e salva com o amor da minha vida. Bom, eu suplico com todas as minhas forças para que vocês não se preocupem e não tentem me encontrar, pois como já disse, eu voltarei bem. Se vocês realmente me amam e querem me ver feliz, irão entender e irão cumprir tudo o que pedi. Eu já sou maior de idade, eu sei me cuidar. E mais uma vez: não se preocupem comigo. Eu amo vocês, mais do que imaginam...
Com carinho,
Lisa.
Percebi pequenas lágrimas escorrerem de meu rosto e formarem pequenas esferas no pequeno bilhete escrito no bloco de notas já bastante violentado. Não era exatamente esse bilhete escroto que eu tinha em mente, mas eu não sei usar belas palavras como aquelas usadas em cartas de despedidas nos filmes. Mas mesmo assim, espero que eles entendam que mesmo eu partindo, meu amor por eles é infinito.

Continua.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Palavras


As palavras possuem a capacidade de mudar o sentido da nossa vida em um simples piscar de olhos. De nos deixarmos mais felizes, ou ainda mais tristes. Podem aconchegar ou desprezar. Humilhar, castigar alguém. Podem fazer o nosso pequeno mundo parar, nem que por alguns minutos. Podem fazer chorar, sorrir. Emocionar. Livrar alguém de algum problema. Despertar uma amizade, ou quem sabe, uma paixão. Podem fazer o coração disparar, deixar uma única lágrima cair. Ferir, bem lá no fundo. Fazer nossa mente enlouquecer, pirar, girar, morrer...

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Um copo de arrependimento, por favor - parte III

Ainda não leu os capítulos anteriores?

Bom, pelo menos a Cassie prestou para alguma coisa. Tive a obrigação de pedir desculpas à ela. Como ela pode ter me ajudado depois de eu ter soltado todas aquelas palavras grosseiras? Enfim, EU VOU CONSEGUIR ENCONTRAR EMANUEL, ou pelo menos conseguir ir até Porto Alegre tentar encontrá-lo. Um parente muito próximo de Cassie irá fazer uma entrega na minha cidade natal no fim deste mês e eu poderei ir junto. Tudo já está organizado, Cassie já combinou com o seu familiar e eu só terei que arrumar minhas coisas e esperar a data chegar. Garanto que serão longos estes dias. Dez longos e cansáveis dias...

Estes dias que estão antecedendo a viagem estão sendo muito complicados para mim, ainda mais que a minha família está em uma fase muito boa. Nunca vi mamãe e papai tão felizes e carinhosos comigo, já faziam meses que eles não ficavam assim. Até parece que eles estão sabendo de alguma coisa e não querem me deixar partir e isso está me preocupando, porém, não posso me abalar e desistir da viagem, minha paz só vai ficar completa quando Emanuel estiver ao meu lado, me amando, como nunca amou ninguém. Bom, se ele amou outro alguém. Faltam apenas cinco dias e toda a vez que eu penso nisto meu coração dispara, não consigo definir se é por felicidade, preocupação, ansiedade, deve até ser uma mistura de todos estes sentimentos, o que até me parece bom. Ou não.

Faltam apenas dois dias, e eu tenho que começar arrumar as minhas coisas. Pode parecer simples, mas tenho que tomar cuidado para que minha mãe não perceba a falta de algumas roupas de meu armário antes de partir, caso contrário, terei que fazer papel de mentirosa também.
'Não é isso que você está pensando mãe, peguei estas roupas para levar à costureira.' Não, não seria uma boa desculpa.
'Mãe, estas roupas são para a doação.' Não, não serviria também, mamãe me conhece, ela sabe que eu não doaria essa quantidade de roupas. Bom, mas eu tenho que esquecer isso e só me focar na viagem. Não tenho do que me preocupar, minha mãe não desconfiará de nada, ela dificilmente vem até meu guarda-roupa, porque viria justo nestes dois dias? Ah, apenas dois dias...

Continua.